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Danças na escuridão

Apagaram-se as luzes. E nós ainda estávamos a dançar, tantos passos ainda por dar… Mas apagaram-se as luzes e, de súbito, tu já não estavas lá. As minhas mãos, que momentos antes se agarravam a ti, tactearam cegamente o vazio da escuridão. Tropecei. Caí. Perdi o chão, tive de o abraçar para o encontrar. Para me encontrar? “À noite todos os gatos são pardos” e eu não fui excepção. Encontrei-me; a custo de uma sombra mais negra que a escuridão que me rodeava. A minha. Depois de a coser ao corpo, ergui-me. Podia estar cego mas não surdo; a música não parou? Não. A música não parou, nem por um segundo. E o corpo sabe, o corpo não esquece. Os movimentos. Os passos. A dança ao ritmo do coração que faz tremer os tímpanos. Então dancei na escuridão. Com alma, sem alma; consciente e inconscientemente. Por paixão. Sem ela. Ainda que dance sozinho. Até que alguém acenda as luzes.

Carta deixada numa porta fechada.

Esta carta é para ti, a cuja porta fui bater mas não a abriste. Eu sei que não nos conhecemos, mas foi por isso que te bati à porta. Porque te queria conhecer. E porque me queria dar a conhecer, também. De coração aberto. Sem reservas, sem segundas intenções. Provavelmente pensaste que era mais um rapaz como os outros. Provavelmente pensaste que eu só te queria usar e deitar fora, como é moda agora. Provavelmente pensaste que irias perder tempo comigo para nada, porque os homens são todos uns merdas que só querem sexo descomprometido e inconsequente. E provavelmente continuaste o teu dia sem pensar mais em mim. Mas queres saber uma coisa? Eu fiquei a pensar em ti. Porque tive de reunir toda a coragem que consegui para te ir bater à porta. Porque eu não sou mais um desses engatatões que te seduzem com duas tretas tão bem elaboradas que te fazem acreditar em príncipes encantados, para no fim te deixarem com a certeza de que vives rodeada de sapos. Porque algo em ti me despertou a curios...
Sorve o veneno como se fosse água. Sedento da travessia do deserto. Não é morte, é paralisia. Anestesia. A pedra afunda-se cada vez mais, alguma vez verá a luz do dia? Batalha perdida após batalha perdida... Mas não vai ser por falta de uma ferradura que se vai perder a guerra. Não. Nem a guerra se perde quando não há mais nada para perder. Venham os irmãos de armas; enquanto os seus ombros não vergarem, a luz continuará a brilhar. Deixem os reis a engordar os seus tronos, quem precisa deles? Lá irão ficar, perdidos nos ecos das galerias sem fim. Mexe um dedo. Agora outro. Só mais um, isso mesmo. Sem parar. “És teimoso como uma mula”. Sem dúvida. Mas só os ignorantes não têm dúvidas, onde foste parar? Tens a certeza que esta guerra é tua? Sim. É. Quem precisa de talento quando tem teimosia? Deixa lá, é uma razão tão boa como qualquer outra. Então transpira o veneno. A pedra vai quebrar e o sangue vai correr. Um dia destes, talvez amanhã. Olha para a luz, ela continuará a brilhar. Nem q...
As horas foram noites, e os dias queimaram anos. Cinzas perdidas entre grãos de areia, caídos da ampulheta, e que não voltam atrás. Areal onde não há rastos, desta vez não há migalhas para indicar o caminho para casa. Casa? Não me façam rir. Já não é. Foi. Era. Uma vez. A história com aquele princípio que virou o fim, mas o que não há maneira de virar é a ampulheta. E pelo meio perdeu-se tanto, mas tanto, mas tanto mesmo! Ficaram sombras. Frias. Sufocantes. No meio da escuridão é só mais uma, pode ser que não vejam e passem ao lado. Mas entretanto espera e o tempo continua a passar. Passa a perna, uma e outra vez. Enquanto continuam à procura do ouro, chegava tão pouco. Esquece o mapa do tesouro, Capitão Gancho. O Peter Pan caiu da Terra do Nunca.
Um dia ele disse: "se uma imagem vale mil palavras, quanto valem estas palavras que te canto?" Mas a resposta não interessava, porque o mais importante era a voz, e a voz era dele. Tinha sido comprada por meia-dúzia de tostões a um vendedor ambulante numa feira, dessas das terrinhas, onde se encontra de tudo e mais alguma coisa. Bom preço, amigo, leve que não se vai arrepender. E ele levou. Podia não ser nada de especial, mas não importava. Porque finalmente tinha uma voz, e a voz era dele. Se já tinha pertencido a outra alma qualquer, ninguém sabia dizer; se já tinha pertencido a outra alma qualquer, ninguém tinha memória. Tanto melhor. Agora a era voz dele. E o que ele fazia com essa voz era responsabilidade dele. Dele, e de mais ninguém.
Tentar? Sim. Não hesitar. Nunca! Já naquele dia fatídico ele dizia, frenético, eléctrico, possuído sabe-se lá por que demónios, "Tu não desistas! Desistir é morrer!", e eu por momentos acreditei que o louco era ele. Vai-se a fazer contas à vida, sobram moedas negras perdidas no fundo de um bolso e o rasgo de lucidez era dele, queres ver que afinal ele sabia mais que nós todos? Com mil demónios. Anda para a frente, moço, que há mais para ver.

Érebo

E o filho de Caos se ergue uma vez mais. Pelo seu braço, Nix esposa e irmã; noite e escuridão unidas num amor incestuoso, perpétuo e mais antigo que o próprio Mundo. Porque as forças primordiais também caem… E na sua imperfeição reside a identidade do Homem. Por isso vem, Érebo, vem. Cobre tudo com o teu manto de escuridão. Para que os justos possam sonhar com o Olimpo, enquanto outros agem na ausência da Luz. Observa. Tão insignificantes criações, perdidas em si mesmas, condenadas! Ri. Quando Caronte cobra o ébolo, nada mais importa. O ciclo não se quebra, o espectador não interfere.