Mensagens

III

Pedes que te conte um segredo. Mas baixinho, para não ouvires. Então a ponta dos meus dedos afasta o cabelo do teu ouvido. Ouves os meus lábios tocar levemente a tua orelha. Os teus olhos brilham, a tua atenção está ao rubro. E eu conto. Deixo escapar de um sopro só. Claro que sim, solta-se a voz e ele foge para aí. É prisioneiro de cela mal fechada e pena ainda pior cumprida. Seja sorte, acaso ou sina, não foi longe. Cortaste-lhe as pernas, salva-se a ironia. Aos teus ouvidos moribundos já não chega grito nem sussurro, e as mãos não sabem como dizê-lo. Linguagem gestual atrás de um espelho, para o emissário ver. As palavras vibram, exaltadas em silêncio. A sua monumentalidade a desaparecer na tua atenção. A tensão cresce -- e as lágrimas traçam linhas salgadas na nossa cara, umas atrás das outras, como se tentassem escavar rugas na pele macia. Passam os anos e o sal fica, cristalizado. Em algo de amargo. Em algo de doce. Um sabor de dor e de amor. E de lábios que se mexem sem ruído ca...

Janela

Olho pela janela. O Mundo corre lá fora. Apressado em rotação mecânica. Apático, indiferente aos corpos à boleia no vazio. Num rumo que ninguém vai alterar. Mas porque olho pela janela? O Tempo aqui abrandou. Porquê olhar pela janela? Viver vicariosamente outras vidas, outras histórias que não a minha? Não, isso não é viver. Fica aqui. Mas aqui o presente é um sonho... E depois? Sonhar não é viver? Do sonho também se faz a realidade. Então sonhar! Sonhar alto! De areia também se fazem castelos. Monumentos à força e ao engenho. Cada grão de areia um passo. Cada grão de areia um momento. Blocos que constroem toda uma vida. E assim do éter se fez algo de palpável. Consubstanciado numa vida. Uma história. Página a página, cada um desses momentos um testamento à passagem inexorável do tempo. Escritas a uma mão. A dez, a mil. Por todas aquelas que acrescentam uma linha, um capítulo, uma nota de rodapé. E as minhas páginas em branco podem ser tuas para escrever. Para descrever um sonho, e com...

Areal.

Não sou a Alice, mas estive do outro lado do espelho. Puxaste-me pela mão, mudaste a perspectiva. E eu fui. Contigo. Atravessámos corredores, salas e quartos. Galerias, escadarias e átrios; os passos no tecto a ecoar no chão. Música no calor da tua voz. O nosso sorriso a iluminar o caminho. Horas intermináveis perdidos e encontrados, abraçados a um paradoxo. Por ali se escrevem promessas que enchem os espaços de vida e de cor. E as paredes cheias de sinais da nossa passagem, amanhã. Mas sempre amanhã. O amanhã nunca chega, é sempre hoje. Espero hoje, e hoje também. A minha teimosia de nada adianta, agora é sempre hoje. E apercebo-me que os passos que ecoam hoje são apenas os meus. A maré do destino subiu, e desapareceste na onda. A mesma onda que invadiu o nosso castelo. Que lhe dissolveu as paredes e o espalhou na praia. Em grãos de areia que outras mãos poderão tornar em algo mais. Um dia, talvez. Mas hoje não. Por hoje o vento sopra um adeus. O sol beija o horizonte e pinta o o...

Danças na escuridão

Apagaram-se as luzes. E nós ainda estávamos a dançar, tantos passos ainda por dar… Mas apagaram-se as luzes e, de súbito, tu já não estavas lá. As minhas mãos, que momentos antes se agarravam a ti, tactearam cegamente o vazio da escuridão. Tropecei. Caí. Perdi o chão, tive de o abraçar para o encontrar. Para me encontrar? “À noite todos os gatos são pardos” e eu não fui excepção. Encontrei-me; a custo de uma sombra mais negra que a escuridão que me rodeava. A minha. Depois de a coser ao corpo, ergui-me. Podia estar cego mas não surdo; a música não parou? Não. A música não parou, nem por um segundo. E o corpo sabe, o corpo não esquece. Os movimentos. Os passos. A dança ao ritmo do coração que faz tremer os tímpanos. Então dancei na escuridão. Com alma, sem alma; consciente e inconscientemente. Por paixão. Sem ela. Ainda que dance sozinho. Até que alguém acenda as luzes.

Carta deixada numa porta fechada.

Esta carta é para ti, a cuja porta fui bater mas não a abriste. Eu sei que não nos conhecemos, mas foi por isso que te bati à porta. Porque te queria conhecer. E porque me queria dar a conhecer, também. De coração aberto. Sem reservas, sem segundas intenções. Provavelmente pensaste que era mais um rapaz como os outros. Provavelmente pensaste que eu só te queria usar e deitar fora, como é moda agora. Provavelmente pensaste que irias perder tempo comigo para nada, porque os homens são todos uns merdas que só querem sexo descomprometido e inconsequente. E provavelmente continuaste o teu dia sem pensar mais em mim. Mas queres saber uma coisa? Eu fiquei a pensar em ti. Porque tive de reunir toda a coragem que consegui para te ir bater à porta. Porque eu não sou mais um desses engatatões que te seduzem com duas tretas tão bem elaboradas que te fazem acreditar em príncipes encantados, para no fim te deixarem com a certeza de que vives rodeada de sapos. Porque algo em ti me despertou a curios...
Sorve o veneno como se fosse água. Sedento da travessia do deserto. Não é morte, é paralisia. Anestesia. A pedra afunda-se cada vez mais, alguma vez verá a luz do dia? Batalha perdida após batalha perdida... Mas não vai ser por falta de uma ferradura que se vai perder a guerra. Não. Nem a guerra se perde quando não há mais nada para perder. Venham os irmãos de armas; enquanto os seus ombros não vergarem, a luz continuará a brilhar. Deixem os reis a engordar os seus tronos, quem precisa deles? Lá irão ficar, perdidos nos ecos das galerias sem fim. Mexe um dedo. Agora outro. Só mais um, isso mesmo. Sem parar. “És teimoso como uma mula”. Sem dúvida. Mas só os ignorantes não têm dúvidas, onde foste parar? Tens a certeza que esta guerra é tua? Sim. É. Quem precisa de talento quando tem teimosia? Deixa lá, é uma razão tão boa como qualquer outra. Então transpira o veneno. A pedra vai quebrar e o sangue vai correr. Um dia destes, talvez amanhã. Olha para a luz, ela continuará a brilhar. Nem q...
As horas foram noites, e os dias queimaram anos. Cinzas perdidas entre grãos de areia, caídos da ampulheta, e que não voltam atrás. Areal onde não há rastos, desta vez não há migalhas para indicar o caminho para casa. Casa? Não me façam rir. Já não é. Foi. Era. Uma vez. A história com aquele princípio que virou o fim, mas o que não há maneira de virar é a ampulheta. E pelo meio perdeu-se tanto, mas tanto, mas tanto mesmo! Ficaram sombras. Frias. Sufocantes. No meio da escuridão é só mais uma, pode ser que não vejam e passem ao lado. Mas entretanto espera e o tempo continua a passar. Passa a perna, uma e outra vez. Enquanto continuam à procura do ouro, chegava tão pouco. Esquece o mapa do tesouro, Capitão Gancho. O Peter Pan caiu da Terra do Nunca.